Ele nasceu com uma mancha roxa em cima da sobrancelha. Ninguém dava bola. De uns dois anos pra cá ela desceu: cobriu o olho direito, que ele não enxerga mais, e hoje chega no meio da bochecha.
Por dentro, o doutor explicou: é um bolo de veias que nasceram erradas e não param de crescer.
O pai dele é ajudante de pedreiro, ganha por dia. Dia de chuva é dia sem dinheiro. A mãe faz faxina, e o que os dois juntam paga comida e luz, e acabou.
Quando as consultas começaram, o pai vendeu a moto que usava pra ir pra obra. Agora sai de casa cinco e meia, de ônibus, e trabalha sábado e domingo também.
Em cima da geladeira tem um pote de vidro. Toda noite ele chega da obra e põe ali o que sobrou do dia.
Faz quatro meses. O pote tá na metade, e a metade não paga nem a primeira consulta. Ele sabe disso e continua enchendo.
Tem que fazer a operação, e não dá mais pra deixar. Isso não para de crescer sozinho, e se continuar como tá, chega num ponto em que não tem mais o que fazer.
É essa a corrida daquela casa. De um lado, uma coisa que cresce todo dia. Do outro, um pote que enche de moeda.
Ele tem dezessete anos e nunca viu o pai reclamar. O que ele quer não é pena, é a chance.
Por isso que qualquer um pode entrar junto com ele nessa história.
E tudo pode começar por aqui: